quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

(Inês)
(Him)

[…]
- Estás tão refugiado em ti mesmo. Isso dá-te um ar de mistério e cativa a querer explorar mais quem és mas também mostras o olhar de quem se foi instruindo a viver sozinho. 
- A dada altura dás por ti algo separada do mundo. São as pequenas coisas, por um lado os dissabores que adensam o casulo interno por outro, o silêncio assim como o afastamento disciplinam a capacidade de observar além do que as palavras dizem, eventualmente constatas que afeição e atenção são usados com descuido fracturando inocências que não mais voltam a ser as mesmas.
- Se bem percebi estás a dizer-me que chegas-te a um ponto onde vives alheado dos outros, mas isso não significa que estás a impedir as amizades de acontecer? Se não dás sequer espaço para alguém entrar então serás sempre o único a conhecer-te a ti mesmo. Não estou a ver como esse modo de vida pode deixar um legado. 

(Ele evitava fixar a sua face mas em silêncio seguia-lhe cada um dos seus movimentos. Não tardaria a aperceber que já tinha deixado entrar demasiado desta evasiva sedução.) 

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

(Him)
(Friend)

[...]
- Estás horas, por vezes dias a pensar o que dizer, como dizer. Sempre a tentar prever qual será a reacção de outra pessoa para que não sejas apanhado desprevenido ou para que tenha o efeito que desejas. Chega o momento e apercebes-te que por muito que controles as variáveis não podes decidir qual será a reacção da pessoa. Uma coisa é o que tu dizes outra é o que a pessoa quer ouvir. São dois egos e ambos querem que a mensagem lhes pertença.
- Estás a tentar dizer-me alguma coisa?
- Estou só a pensar.
- Para quê que serve pensar nisso?
- No momento em que tens o primeiro pensamento, separado da rotina que todos parecem levar, dificilmente consegues voltar atrás. E pensas em tudo, para ti, para os outros, todos os futuros possíveis de todas as escolhas que não chegaste a tomar. 
- Nada que uma mulher nos teus braços não resolva.
- Resolve. Resolve sempre, até o efeito da sedução passar e o frio matinal sentar no rebordo da cama enquanto ela dorme e naqueles minutos em que estás sozinho com os teus pensamentos te apercebes que já estás demasiado despertado para voltar a dormir.

segunda-feira, 23 de junho de 2014

(Inês)
(Him)

[…]
- Why do we have to go through the game in code to say little things when we want to say everything?
- Part of the charm is not knowing. When you recognize what that look hides you can lose the spell forever.
- It seems that people have become accustomed to this way of doing things and nobody dares to do differently, it’s an expected reality with no room for originality. I'm not passing judgment on anyone because for some time now I stopped making judgments about people, life is too complicated for it, and I only wish that living was more than just this… You’re very quiet, what are you thinking about so seriously?
- I'm contemplating your speech knowing that I will never give you an answer.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013


(Inês)
(Ele)

[…]
- Dá-me uma resposta simples ao que te perguntei.
- É o que estou a fazer.
- Isso é complicar quando eu só pretendo um sim ou não.
- Para responder a essa questão tenho de o fazer com uma precisão diferente da que tu queres. Dar-te um sim ou um não terminaria esta discussão mas não me deixaria demonstrar-te que não se pode entender a resposta sem primeiro compreender a pessoa. Tu vês em mim o homem que pensas que sou, só que eu quero que vejas além dos sentimentos que constantemente pretendes ter.
- Estás a dizer que não gosto de ti?
- Estou a dizer que não me conheces; estou a dizer que andamos a fingir durante tanto tempo que já não sabemos fingir ser outra coisa; estou a dizer que é bem mais complicado do que um sim ou não.

na floresta do desconforto

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Tudo na vida corre bem. Já não te lembras da última vez que tiveste uma discussão, o rumo a seguir surge claro na tua frente e avanças com companhia amiga, os diálogos absorvem-se uns aos outros, e com o tempo a vossa maneira de pensar fica cada vez mais igual, seguis o mesmo caminho tendes as mesmas conversas o que faz com que se diluam as diferenças entre os dois. Um dia, sem aviso, um período sombrio abate-se sobre ti. Descobres que como já ninguém trazia algo de novo à equação, esta simplesmente estagnou, tornou-se uma rotina incómoda e constrangedora. Inatamente continuas a persistir, a acalentar a direcção que levavas, até ao momento em que aprendes que é necessário superar, crescer, tornar mais forte, mais inteligente, melhor, incluir algo novo, diferente; queres experiências distintas de ti que adensem o diálogo com os que te rodeiam; é necessário um fervilhar de vida de modo a não cair na apatia; assimilas que não podes continuar como se a vida fosse uma equação estática mas um constante incluir de incerteza que te ateia a chama desafiando a entrar pela floresta do desconforto ardendo tudo quanto tocas.