Quinta-feira, 5 de Janeiro de 2012


(Ela)
(Ele)

(...) 
- Tu fazes-me ver as coisas de outra maneira. Quer dizer, não é bem de outra maneira, porque eu já pensava assim enquanto crescia, mas tu fazes-me voltar a pensar. Estar perto de ti parece que me abre a mente. 
- Estou a sentir um elogio aí pelo meio mas não consigo ver bem onde. 
- Pára! Eu estou a falar a sério. Todos estes livros espalhados ao teu redor, a mudança de noites de cinema para serões no teatro, ver-te com os teus amigos a ter conversas que são mesmo reais.. dou por mim a pensar em coisas como nem saber quem sou nem qual foi a ideia de ter sido criada. Tu pareces ter as coisas tão definidas, cada passo é numa direcção predeterminada - e quando falas, estás sempre irritantemente certo (pausa) não sei, acho que onde quero chegar é que parece existir dois tipos de pessoas, e eu não sou uma dessas pessoas.
- E quais achas que são essas duas espécies de pessoas?
- As pessoas como tu e as pessoas de todos os dias.
- Não estou a ver onde queres chegar com isso mas parece-me que te estás a esquecer de um pormenor crucial: tu existes porque eu te sonhei. Aguardei uma vida por alguém a quem dedicar o meu amor - e todos os dias, todos os momentos que estou contigo, são a razão de eu ter sido criado. Os meus passos levaram-me a ti. Ir ao teatro, assistir a uma ópera, escrever um livro, construir uma casa, são tudo coisas para as quais vamos crescendo quando sentirmos que estamos preparados para elas. E tu, tu não imaginas sequer o quão extraordinária és. Estás entre o ser consciente e a pureza de uma mente por moldar.
- Fazes-me sentir tão, tão…
- Eu amo-te.

You are the one

Segunda-feira, 7 de Março de 2011

Pegando em duas linhas de um post anterior:
– E porquê que nunca me vais amar?
– Porque tu não és a pessoa de quem eu estou à espera.

“Escreve a explicar-lhe porque não gostas dela. Porque não é ela a tal.”


Carta de desamor:

Cara X.
Sinto que fui cruel no terminar da nossa relação. E venho por este modo expor mais claramente os motivos que me levaram a ausentar da tua presença.

Amar. Só existe um tipo de amor. Quando amo, amo incondicionalmente, e é-me difícil encontrar alguém que ame do mesmo modo. Não assumo uma relação que saberia ser um conformar de um destino que não se cumpriu.
Ao invés de te dizer o porque acho que não somos feitos um para o outro, creio que faz mais sentido dizer-te quem é a pessoa por quem o meu coração suspira.
Ela chama-se perdida numa noite fria e húmida deslizando entre a névoa desfigurante num estranho deleite hipnotizante.
Abro as portas do meu ser e faz-me ver o que eu quero ver e ser o que eu quero ser e mostro-lhe tudo o que sou, e ela diz: vem, quero que me vejas a mim quando penso mais do que devo pensar quando faço mais do que devo fazer, quando bebo mais do que devo beber, para me levar um passo mais próximo para junto de ti.
Ela é doce e inebriante e terrivelmente instável no desespero de um amor imperfeito caminhando louco na companhia de um fantasma com os olhos como memórias do passado que beija constantemente a lembrança dolorosa da resistência que a vida colocou no trilho que nos uniu.
Ela é uma falsa amante desmembrando páginas do livro da existência uma a uma, num pacto divino de libertação do destino a que todos parecem se render.
Ela é o sangue que me escorre do peito arrancado após o apelo do propósito que escrevi para mim mesmo ter sido recusado, e servido como taça de humor às Cilas do tempo moderno, num desapego concubino ao eterno medo da minha intrepidez esquecida nos bolsos de um Deus reflexo de um espelho sem som, sem música alta, tão alta que me explode o gritar eufórico de poder dizer que a amo.
Ela é a minha última hipótese de fugir rumo à liberdade, enquanto acredito que a um espírito possuído não são impostas regras. Ela é o meu destino, numa viagem onde o suor dos nossos corpos se observa na aurora de um leito vazio, comigo a conduzir e tu a dormires serenamente no banco de trás, rumo ao pôr-do-sol.

Ela chama-se

to be me

Um post anterior criou algum atrito entre mim e a Inês. Creio que é seguro dizer que vamos deixar a nossa heroína ao esquecimento durante algum tempo e deambular antes sobre aspectos de índole varonil.
 
É uma tarefa bastante difícil conseguir chegar-se a adulto e ser alguém que pelo caminho se manteve de consciência pura. Não sei se percebem onde quero chegar?! Teres todo o mundo a agir conforme lhes apetece e tu seres a única pessoa que ainda tem uma consciência e uma clarividência sobre as coisas e que realmente age segundo essa consciência. Pois ter consciência mas não agir de acordo com ela é exactamente onde quero chegar. Não é fácil ser-se um Eu. E são tantas as ilusões primaveris a abrirem os seus peitos ao sol de todo o ano.

A princesa

Dado que um dos últimos posts foi algo sombrio, decido compensar com uma história cor-de-rosa.

Num passado algo recente, existe uma princesa que se chaaammmaaaaa… Inês. Filha da rainha da terra de tão longe que quase não se vê e do rei do reino de amanhã.
Como em praticamente todas as histórias de princesas, a nossa Inês cresceu e os sentimentos do encanto do amor levam-na a aguardar o seu príncipe encantado.

O príncipe nunca apareceu. A Inês rendeu-se à evidência e casou com um jovem escolhido pelo pai. Vivendo acomodadamente feliz-triste para sempre.


(é para aprenderes a não dizer que não gostas dos meus posts :p)

Acordava de um sonho confuso, ainda algo desnorteada procurava-o no estender do braço mas não o encontrava. Um esforço espreguiçante tocou ao de leve na rosa disposta sobre o travesseiro nem se apercebendo da folha escrita caída nos lençóis amarrotados do amanhecer. O esboço sorriso na surpresa de ver a flor deu lugar ao rebolar feliz de um coração enamorado. No aperto da rosa junto ao seu peito um espinho penoso furou o delicado seio e a gota de sangue escorria gentilmente num gesto que principiava o gélido destino tardio da mensagem não lida no bilhete esquecido até ao fim do dia.


(Ele)
(Ela)
___________________
- Já alguma vez paraste realmente para pensar se acreditas em Deus?
- Acredito no amor.
- No amor?
- Sim. Creio que é a mesma coisa.
(Ele passou levemente a mão pelos cabelos e pela face e inclinou-se e beijou-a.)

___________________
- Tive um sonho e nesse sonho estavam a chover balões pretos. Qual é o significado disso?
- Não te preocupes. Não podem chover sempre balões cor-de-rosa.
- E isso tem um sentido mais profundo que agora vais explicar certo?
- Nem por isso.